Violência nas relações de intimidade juvenis: uma reflexão a partir dos dados

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Por Ana Guerreiro*

Escrevi há um ano, por esta mesma altura, um pequeno texto sobre a Violência no Namoro. Repescando-o, apercebo-me que pouco ou nada mudou.

Dizia, à altura, “há tanto por fazer!” e, um ano depois, mantenho essa mesma opinião.

A UMAR lançou este mês um Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro, trabalho este que se revela bastante representativo com uma amostra de pouco mais de 5500 jovens. Da análise, pretendo dar particular realce a 3 dados fundamentais, e por isso, a três formas de violência, com o objetivo de aguçar a reflexão:

  • 24% dos/as jovens legitima a violência sexual;
  • 15% já foi vítima de perseguição;
  • 11% já foi vítima de violência através das redes sociais.

Ora, o destaque para estes dados não é inocente, nem se baseia no critério do “choque”; assenta antes na chamada de atenção para uma série de comportamentos que muitas vezes passam despercebidos para a maioria das pessoas, por considerarem que os/as jovens não os têm ou até mesmo pelo avanço secular.

Recorrendo a uma análise detalhada, os números são ainda mais alarmantes: dos 24% que legitima a violência sexual, e no que se refere ao comportamento de pressionar para ter relações sexuais, há uma diferença de quatro vezes mais entre rapazes e raparigas, sendo os rapazes os que mais legitimam. O que quererá isto dizer? Estaremos perante uma banalização das relações sexuais? Será que a educação sexual é abordada da forma mais correta?

A perseguição, com um novo enquadramento legal desde 2015 em Portugal, comumente conhecida como stalking ou assédio persistente, foi uma das novas dimensões assumidas este ano pelo estudo, querendo dar visibilidade ao fenómeno. Os números conseguem chamar-nos para a necessidade de dar uma maior atenção a este comportamento que, pelas suas características, representa uma forma de controlo de extrema gravidade.

 No que diz respeito às redes sociais, a crescente utilização dos meios informáticos, trouxe reconhecidas vantagens, mas também inovações no que concerne a novas formas do exercício da violência. Os dados revelam que é frequente a utilização destes meios como veículo não só de comentários que denigram a imagem da outra pessoa como também a partilha de fotos ou vídeos íntimos.

Em Portugal, o ideal de prevenção está, aos poucos, a ser introduzido e aceite mas nunca é demais afirmar que é exatamente com os/as jovens, e ao longo do processo de socialização, que devemos promover a mudança.  Uma mudança urgente e que só é tangível através da (re)construção das diferentes formas de ver as relações e de ver o/a outro/a.

 

 

*Ana Guerreiro é Criminóloga na UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, trabalhando na prevenção da violência com jovens, e Docente Convidada no ISMAI – Instituto Universitário da Maia. É também investigadora da UICCC – Unidade de Investigação em Criminologia e Ciências do Comportamento.